quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O balaio

     Estava respondendo uma pesquisa de público de um blog hoje e percebi que, quando eles perguntam idade nessas coisas, colocam umas faixas etárias tipo assim: de 15 a 20 anos/ 21 a 25/ 26 a 30.
     Ainda que haja variações na primeira faixa, as duas últimas que citei são quase fixas: se você tem 25 está no balaio das que têm 20; se você tem 26, está no balaio das que têm 30.
     Problema? Nenhum.
     A postagem veio na minha cabeça mais como uma constatação com relação a balaios do que com relação a idades (e com certeza tem a ver com o fato de que entro pro balaio de lá mês que vem). Mas como assim balaios?
     Fiquei pensando quantas vezes por dia, por hora, somos colocados e nos colocamos em diversos. Dia 16 de agosto me coloquei no balaio das mulheres casadas. Tem também o balaio das casadas sem filhos, das pessoas casadas em geral (sem distinção de sexo), das heterossexuais, das que usam aliança, das que casaram na igreja, no cartório, etc.
     Esses são os que têm certa relação com o casamento em si. E os outros, tantos, muitos? Mulher, homem, come carne, é brasileiro, pinta cabelo, magro, deficiente, extrovertido...
     Fiquei, mesmo, pensando quantas e quantas vezes usamos os balaios como desculpa, como cabeçalho de um relacionamento (de qualquer teor), como motivo de preconceito. É alemão? É frio. É mulher? Não sabe dirigir. É homem? Trabalha fora e não faz nada de serviço de casa. É cristão? É burro, homofóbico e resignado.E por mais que digam que isso não é verdade, coisas que derrubam de certa forma as construções desses balaios são exatamente aquilo que vira notícia - a propaganda "moderninha" de inseticida, a notícia sobre mulheres taxistas, ou quando um bando de nórdicos fazem uma homenagem de aniversário pra um motorista de ônibus querido. Concordo: têm que haver essas coisas pra mostrar, mas o fato que 1 - seja necessário/ 2 - as pessoas briguem dizendo que "não há preconceito"/ 3 - ainda haja surpresa com relação a uma construção de balaio desfeita me incomoda, e me incomoda mais ainda quando percebo que eu mesma, inevitavelmente, caio nessa trama.
     Tento muito não estar embalaiada. Mas estou, me embalaio e me embalaiam todos os dias quando me olham, quando falam comigo, quando sabem algo sobre mim e eu faço o mesmo, ainda que seja minimamente consciente e tente lutar contra isso (além de haver vezes em que eu não preciso lutar e, graças a Deus, isso já vem naturalmente).
     Claro que é também algo útil: construímos nossa identidade com grupos, com definições mais ou menos formatadas e depois vamos moldando mais ou menos conforme percebemos ser o melhor ou mais correto de acordo com nossas definições. Mas que definições são essas? São realmente nossas e livres?
     O que me enlouquece é pensar que provavelmente não haja liberdade nenhuma, nem mesmo quando imaginamos estar escolhendo e mudando para nos adequarmos à forma "nossa" de ser. Quando foi que existiu uma escolha decisão, livre de preconceitos, de história de vida, de édipos, de, de, de...?

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