sábado, 4 de maio de 2013

Umas coisas que eu pensei

     Essa semana passamos por maior polêmica por conta de um texto que fala da suposta inutilidade do curso de letras - meu curso, meu sonho, meu orgulho (o que não tem nada a ver com umas coisas ruins da academia). O cara disserta longamente sobre questões acadêmicas bastante pertinentes, como os gastos excessivos com pesquisas nem sempre relevantes, que muito geram uma corrida - como diria meu orientador, o "fordismo do homo lattes" - vazia por enchimento de currículo. Nada contra, pratico a modalidade. O problema é quando vira só isso. Muita gente sugando o dinheiro público viajando pra lá e pra cá apresentando comunicações de 20 minutos em eventos herméticos com trabalhos ruins e gente egomaníaca - é o que mais tem. Sem querer me estender muito no assunto, queria muito ter podido fazer uma leitura fria do texto do cara, que tem lá (o texto, não o cara, que não conheço) seus méritos. Queria ter lido isso sem a mágoa de ver que ainda tem gente que acha que ser médico e advogado e engenheiro é ser doutor e que humanas não leva ninguém a nada. Queria ter podido ler esse texto com os olhos bem resolvidos de alguém que sabe que tem gente que pensa assim e fazer o quê e segue com a vida. Mas não consegui.
     Construí muitas opiniões e chamei amigos e professores no páreo. Meus professores declararam o desprezo por um texto amargurado e sem fundamentos - fato. Pouco conhecimento sobre linguística, literatura e ensino detonam tudo ali. Mas o mais interessante, e isso nada tem a ver com o texto em si, é que a gente começa a refletir sobre a nossa situação frente a essas questões: e por isso não me arrependo de ler o texto e acho muito bom que ele exista, porque é a partir de coisas assim que a gente pensa e chega a algumas conclusões. É a partir de coisas assim que a gente se incomoda e age - minha whole pesquisa de mestrado envolve isso: agir a partir de um incômodo. Funciona bem, tá até empírico.
     A ação nesse caso é muito mais abstrata que de pintar a cara, e não por isso menos real. Acontece que a gente vai chegando a certas conclusões, do tipo perceber que se fez a coisa certa e a ver (com grande satisfação) que discordar dos outros acontece e é muito bom e enriquecedor. Já fui adolescente e me lembro bem de acatar tudo que estava escrito e hoje sei que tem muito doutor que devia ter é diploma de idiota.
     O que estou querendo - e não conseguindo - dizer é que hoje sei que fiz a escolha certa do que estudar, mas é mais que isso. Um sábio professor uma vez disse que o que fazemos é inútil. Depois do choque inicial da afirmação ele explica: "Inútil também são arquitetura, moda, música, teatro, cinema, gastronomia. Vamos viver só com o que é útil, então". E aí eu fui percebendo que a utilidade não é, necessariamente, um valor positivo ou absoluto. Útil para quê? Então está posto que só é útil economizar dinheiro, fazer remédios e tirar gente da prisão? É sério que tem gente achando que estudar literatura não muda a vida das pessoas? É for real que galera acha que ser professor de língua é só passar regra de oração subordinada no quadro?
     A questão acho que fica assim: a gente tem muito que saber o que está fazendo. E pra isso eu venho chamar lá antes de Cristo: Sócrates já mandava - "Conhece-te a ti mesmo" e eu ouso fazer um adendo. Conhece-te, sim, a ti mesmo, e não te deixes amarrar por isso. Porque muitas vezes a gente até saca (tem uma ideia daquilo) o que quer, mas deixa isso ser contaminado por muita coisa. Pensa em ganhar dinheiro, em status, em aprovação, em satisfazer o próprio ego frágil colecionando fãs e repetindo sempre as mesmas asneiras que, um dia fizeram sucesso, hoje são bobagens, mas os fãs são tantos que continuam alimentando. Repare bem, não estou fazendo apologia ao vácuo do pura e simplesmente siga seu coração - estou trabalhando a ideia de que, acima de tudo, a gente tem que lembrar os motivos, a gente tem que ter bem assentado na nossa cabeça o porquê de fazermos o que fazemos. Inútil, útil, bonito, braçal, artístico ou nada disso: quando o relógio está marcando 4 horas da manhã e suas costas estão doendo enquanto você luta pra achar em que página o Foucault falou de um conceito de que você nem lembra bem o nome, ou quando o recuo não fica do jeito que você quer, ou mesmo se você nunca se lembra direito o conceito de imanência - é esse saber porque que vai te levar pra frente. É quando, no meu caso, eu volto no Livro do Desassossego (do Fernando Pessoa, meu objeto de estudo) e releio pra retirar um trecho: mesmo cansada e duvidando na noite, eu me lembro daquilo que nunca esqueci.
     Até queria falar mais sobre o tal texto, mas o que queria mesmo é isso aí. Enfim.

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